domingo, 5 de dezembro de 2010

O dia seguinte-Luis Fernando Veríssimo.

Aconteceu que Renata e Roberto abriram os olhos ao mesmo tempo. Era meio dia. Algum ruído da rua deve ter acordado os dois, não sei. O fato é que os dois acordaram juntos. Suas caras a centímetros uma da outra. Frente a frente. Agora primeiro de janeiro.
Os dois estavam nus, na mesma cama, no mesmo lençol, e eles não sabiam como tinham chegado ali não conheciam um ao outro. Ficaram se olhando por um minuto e meio, piscando. Quem falou primeiro foi Roberta. Disse:

-- Oi.

-- Oi. – disse Renato.

Silêncio. Um pouco depois Roberta olhou em volta e perguntou: --seu apartamento?

Renato olhou em volta antes de dizer

-- acho que não...

Roberta lhe estendeu a mão.

-- Roberta.

-- Renato.

Os dois tentaram fazer uma reconstituição da noite tinham ido a vários réveillons diferentes, bairros diferentes também. A última coisa que Renato se lembrava era ter gritado de uma janela a meia-noite, ”um ano do cacete para todo mundo!”. A última coisa que Roberta se lembrava era de estar deitada no chão agarrada a uma garrafa de champanhe, resistindo a todas as tentativas de tirarem ela de seus braços. Onde podiam ter ser encontrado?Não iam aos mesmos lugares. Seus grupos de amigo não eram os mesmos. Suas famílias provavelmente não se conheciam. Tinham mais ou menos a mesma idade. Mas o que tinham em comum termina por ai. Chegaram ao que parecia ser uma referência comum, tal de Rocha, mas logo descobriram que não se tratava da mesma pessoa. Clube, bairro, faculdade, trabalho, nada se encachava. Era como se estivem vivendo em civilizações diferentes. Mundos a parte.

Nenhuma identidade tribal explicava estarem ali, nus na mesma cama. Nada combinava, nem passa tempo. Ele coleção de selos, ela ginástica rítmica. Nem preferências musicais, ele Caetano, MPB em geral e também um pouco de jazz, ela rock. A única coisa que tinham em comum era que nenhum dos dois estava acostumado a beber e os dois eram meio tímidos. Não tinham idéia por que haviam bebido tanto naquele fim de ano. A proximidade do milênio talvez fosse isso. Ele não tinha namorada, e ela tinha brigado com o seu namorado em junho. Onde será que tinham se encontrado? Era inútil. Ficaria um bom tempo tentando se lembrar, tentando sincronizar suas biografias. Não conseguiram. Depois pelo que eu soube, eles tiveram dois problemas. Primeiro: ele sugeriu, meio sem jeito que já que estavam ali nus, na mesma cama... E ela reagiu, indignada, dizendo que na verdade nem se conheciam.

Segundo: discutiram para ver quem se enrolaria no lençol para sair da cama sem que o outro visse pelado, comprometendo-se a não olhar para trás e ver a nudez desprotegida do outro desconhecido. Ela ganhou. Quando estavam saindo do apartamento, viram que tinha um homem dormindo no sofá, de boca aberta, ela não queria, mas ele acordou o homem. Para saber, pelo menos, a onde estava. O homem levantou-se de um pulo. Olhou para eles, logo depois olhou em direção ao quarto.

-- Posso ir dormir na minha cama?—disse, indo em direção ao quarto.

-- Espere quem é você?

Ele nem se virou para responder.

-- Romão.

Logo depois parou, pensou um pouquinho e, nem sem se virar corrigiu.

-- Romão, não. É por aí.

E entrou no quarto resmungando

-- Que ano. -- novo.

-- Amigo seu? -- Renato perguntou para Roberta.

-- Nunca vi. –ela disse.

Os dois saíram do apartamento -- se beijavam nas faces ou não? – e depois foi cada um pra seu lado.

Aconteceu que Renata e Roberto abriram os olhos ao mesmo tempo. Era meio dia. Algum ruído da rua deve ter acordado os, dois, não sei. O fato é que os dois acordaram juntos. Suas caras a centímetros uma da outra. Frente a frente. Agora primeiro de janeiro.
Os dois estavam nus, na mesma cama, no mesmo lençol, e eles não sabiam como tinham chegado ali não conheciam um ao outro. Ficaram se olhando por um minuto e meio, piscando. Quem falou primeiro foi Roberta. Disse:

-- Oi.

-- Oi. – disse Renato.

Silêncio. Um pouco depois Roberta olhou em volta e perguntou: --seu apartamento?

Renato olhou em volta antes de dizer

-- acho que não...

Roberta lhe estendeu a mão.

-- Roberta.

-- Renato.

Os dois tentaram fazer uma reconstituição da noite tinham ido a vários réveillons diferentes, bairros diferentes também. A última coisa que Renato se lembrava era ter gritado de uma janela a meia-noite, ”um ano do cacete para todo mundo!”. A última coisa que Roberta se lembrava era de estar deitada no chão agarrada a uma garrafa de champanhe, resistindo a todas as tentativas de tirarem ela de seus braços. Onde podiam ter ser encontrado?Não iam aos mesmos lugares. Seus grupos de amigo não eram os mesmos. Suas famílias provavelmente não se conheciam. Tinham mais ou menos a mesma idade. Mas o que tinham em comum termina por ai. Chegaram ao que parecia ser uma referência comum, tal de Rocha, mas logo descobriram que não se tratava da mesma pessoa. Clube, bairro, faculdade, trabalho, nada se encachava. Era como se estivem vivendo em civilizações diferentes. Mundos a parte.

Nenhuma identidade tribal explicava estarem ali, nus na mesma cama. Nada combinava, nem passa tempo. Ele coleção de selos, ela ginástica rítmica. Nem preferências musicais, ele Caetano, MPB em geral e também um pouco de jazz, ela rock. A única coisa que tinham em comum era que nenhum dos dois estava acostumado a beber e os dois eram meio tímidos. Não tinham idéia por que haviam bebido tanto naquele fim de ano. A proximidade do milênio talvez fosse isso. Ele não tinha namorada, e ela tinha brigado com o seu namorado em junho. Onde será que tinham se encontrado? Era inútil. Ficaria um bom tempo tentando se lembrar, tentando sincronizar suas biografias. Não conseguiram. Depois pelo que eu soube, eles tiveram dois problemas. Primeiro: ele sugeriu, meio sem jeito que já que estavam ali nus, na mesma cama... E ela reagiu, indignada, dizendo que na verdade nem se conheciam.

Segundo: discutiram para ver quem se enrolaria no lençol para sair da cama sem que o outro visse pelado, comprometendo-se a não olhar para trás e ver a nudez desprotegida do outro desconhecido. Ela ganhou. Quando estavam saindo do apartamento, viram que tinha um homem dormindo no sofá, de boca aberta, ela não queria, mas ele acordou o homem. Para saber, pelo menos, a onde estava. O homem levantou-se de um pulo. Olhou para eles, logo depois olhou em direção ao quarto.

-- Posso ir dormir na minha cama?—disse, indo em direção ao quarto.

-- Espere quem e você?

Ele nem se virou para responder.

-- Romão.

Logo depois parou, pensou um pouquinho e, nem sem se virar corrigiu.

-- Romão, não. É por aí.

E entrou no quarto resmungando

-- Que ano. -- novo.

-- Amigo seu? -- Renato perguntou para Roberta.

-- Nunca vi. –ela disse.

Os dois saíram do apartamento -- se beijavam nas faces ou não? – e depois foi cada um pra seu lado.

Olga Cavalcanti - turma 122

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